quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Melhor do que eu sou

 O primeiro texto do ano não é um conto, mas um convite à reflexão. Trata-se de uma espécie de desabafo mais estruturado baseado num sentimento que está cada vez mais recorrente.


O texto vai falar da minha dificuldade de acompanhar o ritmo e a enxurrada de informações e temas que, por alguma característica de seu meio e bolha social, você deve se inteirar. 


O pensamento me veio quando em um momento de pausa que fiz durante uma maratona de leitura decidi ir à padaria para tomar sopa. E, nesse meio tempo, escolhi, inicialmente, escutar o Xadrez Verbal de dezembro de 2024. O programa tem mais de seis horas de duração. Comecei, acabei o primeiro bloco e eles estavam falando sobre política internacional, comentando sobre o conflito armado em algum país do continente africano e que, possivelmente, os estados unidos estariam com os dedos nos botões que faziam as armas chegarem lá. Interessante, revoltando e curioso.


Veja, não passei do primeiro bloco e parei Migrei para ouvir um disco do Sain, filho do Marcelo D2, que é bom pra caralho. Mas aquilo, a parada, o percurso, o não seguir e terminar não saíram da minha cabeça: eram 6 horas de podcast, Venezuela pegando fogo, mudança no banco central, Flávio Dino com a tentativa de acabar com as emendas secretas e Gusttavo Lima, esse mesmo, como possível candidato à presidente do Brasil. São muitas informações, peguei a maioria de orelha, ouvindo tudo em segundo plano ou em algum vídeo curto de tiktok ou Instagram.


Confesso, eu não consigo acompanhar. Cada dia mais minha atenção vai se deteriorando e largar o celular com os vídeos curtos e suas fontes infinitas de prazer algorítmico me enredam, sou uma tartaruga comendo lixo. E, por isso, me sinto meio deslocado de um papel em que estive protagonizando por muito tempo: o sabichão da turma.


É, não sei mais explicar do que tá rolando na política brasileira e muito menos a internacional. Se você me perguntar vou ser raso, como um pires e se brincar foi enrolar com alguns jargões que aprendi com todos esses anos de sociólogo. Confesso que perdi o interesse em ocupar esse espaço e vivo num conflito interno para encontrar o meu lugar aqui nisso tudo. Lembro muito do poema em linha reta, aquele que na novela O Clone foi adaptado e recitado por Osmar Prado em horário nobre. Lobato abre seu cantil de uísque e bebe em horário de trabalho, o patrão flagra e a conversa vai para um lado em que Lobato, o beberrão, é humilhado pelo iluminado patrão. Em versos, Lobato esperneia e recita o poema que pra mim grudou em meus ossos e hoje me serve como tendão, muleta.


Eu sei que sou vil, literalmente vil e confesso que não tenho parte nisso tudo que é a parte daqueles iluminados que não tomaram uma porrada se quer. Quando vem a possibilidade do soco eu me agacho, evito. Sou covarde e preguiçoso. Mas, hoje vivo num dilema ético que me incomoda, como quando você é criança e sente os dentes amolecer, sente o gosto do sangue a falta do dente de leite para que um, mais forte e definitivo, tome o seu devido lugar na arcada dentária. Sinto que essa vileza, essa pequenez que grudou minhas pernas não me pertencem. Foi algo que me agarrei para permanecer vivo, num eterno se enganar.


Uma vez caí em um papo de coach. Disseram que tenho que fazer uma limpeza de dopamina. Mas que caralhos é dopamina? bom, sou viciado em celular e o feed infinito é minha droga, ninguém precisa me dizer isso. Disseram que preciso acreditar, por a mente para projetar um futuro, um desejo, algo que eu queira muito. Porra, isso me deixou ansioso.


O processo de re-acreditar as minhas capacidades e de desmentir algumas certezas que se cimentaram em uma espécie de desculpa dada a mim mesmo para permanecer em um lugar medíocre é doloroso. Há uma espécie de sentimento que parece ser o do privilégio de estar por fora, quando na verdade é um sofrimento auto imposto para uma autopiedade florescer. “Não consigo fazer isso! mas é porque não quero” Não quero? porra, eu quero para um caralho! mas não faço por ignorância, preguiça e outros pecados capitais. 


Vivo, neste exato momento, uma derrota. Uma não, várias. Eu tenho plena consciência disso, estou falhando em diversas áreas de minha vida enquanto tento sucesso em poucas outras. O desafio que era para ser diário, virou um escape, uma espécie de buraco que furo na minha sacola de frustrações e por isso, vez ou outra, coisas boas saem. 


O resumo da ópera é que estou um pouco cansado de mentir para mim. Estou desgastado e como um recém adulto tenho obrigações a cumprir. Essa será a primeira vez no ano que faço um diário público, espero que sejam poucos e que ao invés de ter a letra como um escape, espero, com todo meu coração, que seja um lugar para eu trabalhar os pensamentos, as ideias (que são diferentes dos pensamento) as epifanias, as musas, os vilões, o horror cósmico e a arte! a arte que floresce no processo de autoaperfeiçoamento egoísta. Pois, como sou vil, extremamente vil. Mudarei por mim, para me sentir melhor e ser melhor do que sou...



Se quiser veja o vídeo da música cantada por mim e parceiros de outros tempos em que não era quem sou e muito menos dono de mim e egoísta. Melhor do que eu sou