O mar não estava calmo, a maré estava alta. Eles sabiam que a pescaria não seria boa essa semana e por isso a ida ao mar era procedural, era só o cumprimento de uma rotina que vez ou outra premiava os insistentes.
Zé, o pescador e dono da catraia de nome “Menino Lindo”, era um homem castigado por quem ilumina a lua, tinha a barba por fazer e um bigode farto, o corpo não era atlético e demonstrava uma inclinação aos prazeres da terra: cerveja e fritura, o seu cheiro.
O pescador era casado com Renata, mulher de mãos firmes, de um olhar terno com cor de castanha e uma gargalhada farta que fazia parir a alegria onde chegasse. Ela não gostava do mar pois perdera seu pai para uma maré alta como a da próxima saída do marido. “O mar não tem cabelo” era uma espécie de mantra que vivia repetindo para a meninada da vila de pescadores.
Aquilo que é cotidiano, para nós seres humanos, torna-se banal. O caminho feito todos os dias perde o encanto, tira a atenção e expõe aquele que caminha aos perigos da banalidade. O mar, para os pescadores e aquelas pessoas do vilarejo era o quintal que conheciam desde o nascimento até o último suspiro. Inclusive, muitos últimos suspiros foram dados devido à braveza do mar, ao peixe remoso e da fome de mãe d’água, uma espécie de culpada pelos desaparecimentos de barcos e catraias da região.
Ninguém sabe realmente o que é ou o que são as mães d’agua. Uma vez um turista vindo do sul disse que a lenda batia muito com o que ele tinha visto em Piratas do Caribe 4, afirmando que a criatura da lenda local só poderia ser uma sereia. Mas para Zé aquilo não passava de crendice, não era sereia e nem nada, para ele seria no máximo um golfinho, uma baleia ou até mesmo algum tubarão. Zé, mesmo católico, era cético para esse tipo de crendice escatológica. “Onde já se viu mulher com rabo de peixe” bufava toda vez que a mãe d’agua era mencionada.
Uma semana tinha passado e nada do mar melhorar. Por isso combinaram, Zé sairia com o Menino Bonito e mais dois cabras para vê se a fortuna estava com eles. A vila estava morna, do jeito que as coisas iam tudo ia se apertar para a família daqueles três caboclos que agora ja estava costurando a rede enquanto cantavam. A música do momento era aquela “só fé, só fé” do cantor Grelo. Cantavam até que a jotabelesqui desligou do nada e como estava envoltos pela rede decidiram eles mesmo cantarem alguma coisa.
Além do Zé, la estava o Emerson, garoto jovem que tinha ido pouco ao mar quando tudo estava virado ao avesso. E o Moacir, homem negro com seus cinquenta e cinco anos com bigode farto, esse era mais experiente e, diferente de Zé, um dos maiores mandingueiros do vilarejo. Por causa disso, a primeira música puxada depois do silêncio do sonzinho bluetooth foi uma música que pedia a calma da mãe d’agua e a permissão para a pesca.
Não vamos reproduzir a música pois só quem vai para o mar deve entoar a canção. Portanto, caros leitores, nos pouparei de pedir algo que não podemos receber caso a prece seja atendida. Falo isso pois não há nada mais frustrante para mim do que me preparar para receber ou fazer algo para alguém e esse alguém não aparecer ou sumir. Não faremos isso com a mãe d’agua.
Voltando àquele momento da canção: Moacir canta, Emerson assovia acompanhando e Zé se cala e arrepia. Nunca tinha acontecido antes, o caboclo dono da catraia já tinha ouvido aquela canção incontáveis vezes e nunca a sua espinha tinha sentido aquilo. Sentiu como se seu corpo fosse percorrido por uma corrente elétrica atiçando todos os seus nervos o fazendo entrar num modo de alerta. Respirou fundo, deixou passar.
Depois de costurada partiu para casa, preparar o samburá e dormir no cangote de sua estrela, seu farol. Renata vivia um misto de sentimentos: uma hora choramingava nos cantos da casa maldizendo o mar por seu temperamento de poucos amigos, outra hora tentava se convencer que era necessário arriscar pois a carteira estava vazia e o boleto do cartão da máquina de lavar estava para vencer. Entre o misto de estados dava colo a Zé.
Renata, na cama, falou que sentiria saudade e que a cada minuto rezaria pelo retorno da catraia. Zé ficou calado, o único som que esboçava era o de cafungar. A noite foi quente, eles transaram no calor e abriram a janela para que a brisa do mar matasse o calor e permitisse o sono.
Zé quase não dormiu. A espinha ainda estava arrepiada e, enquanto sentia a brisa do mar, ouvia, se repetindo, a canção da mãe d’agua. Foi a primeira vez que Zé teve medo de lenda.
Acordou, limpou o rosto na bacia. Beijou Renata, que sorriu alto na tentativa de parir a alegria, Zé, com sorriso amarelo, respondeu a tentativa. Tudo estava estranho. Foi à catraia, Renata não acompanhou, afinal era corriqueiro. O caboclo encontrou Moacir já arrumando a descida da embarcação enquanto Emerson carregava a rede. O mar não estava bom.
Lutaram para passar da zona das ondas, entraram de fato no mar. Passaram da barreira de corais e chegaram onde quem manda é aquele que não tem cabelos. Zé estava tranquilo, estava de pé remando quando algo agarra seu pé.
Dois dias se passam e a reza de Renata dá frutos. O Menino Bonito volta para a praia sem os homens e com a rede cheia. Isso gera um buruçu danado na areia quando entre os peixes encontram algo com olhos de mulher, com a barriga cheia segurando uma JBL que repete a Dorival de Academia da Berlinda.