sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Zé, Renata e a Catraia

O mar não estava calmo, a maré estava alta. Eles sabiam que a pescaria não seria boa essa semana e por isso a ida ao mar era procedural, era só o cumprimento de uma rotina que vez ou outra premiava os insistentes.


Zé, o pescador e dono da catraia de nome “Menino Lindo”, era um homem castigado por quem ilumina a lua, tinha a barba por fazer e um bigode farto, o corpo não era atlético e demonstrava uma inclinação aos prazeres da terra: cerveja e fritura, o seu cheiro.


O pescador era casado com Renata,  mulher de mãos firmes, de um olhar terno com cor de castanha e uma gargalhada farta que fazia parir a alegria onde chegasse. Ela não gostava do mar pois perdera seu pai para uma maré alta como a da próxima saída do marido. “O mar não tem cabelo” era uma espécie de mantra que vivia repetindo para a meninada da vila de pescadores. 


Aquilo que é cotidiano, para nós seres humanos, torna-se banal. O caminho feito todos os dias perde o encanto, tira a atenção e expõe aquele que caminha aos perigos da banalidade. O mar, para os pescadores e aquelas pessoas do vilarejo era o quintal que conheciam desde o nascimento até o último suspiro. Inclusive, muitos últimos suspiros foram dados devido à braveza do mar, ao peixe remoso e da fome de mãe d’água, uma espécie de culpada pelos desaparecimentos de barcos e catraias da região.


Ninguém sabe realmente o que é ou o que são as mães d’agua. Uma vez um turista vindo do sul disse que a lenda batia muito com o que ele tinha visto em Piratas do Caribe 4, afirmando que a criatura da lenda local só poderia ser uma sereia. Mas para Zé aquilo não passava de crendice, não era sereia e nem nada, para ele seria no máximo um golfinho, uma baleia ou até mesmo algum tubarão. Zé, mesmo católico, era cético para esse tipo de crendice escatológica. “Onde já se viu mulher com rabo de peixe” bufava toda vez que a mãe d’agua era mencionada.


Uma semana tinha passado e nada do mar melhorar. Por isso combinaram, Zé sairia com o Menino Bonito e mais dois cabras para vê se a fortuna estava com eles. A vila estava morna, do jeito que as coisas iam tudo ia se apertar para a família daqueles três caboclos que agora ja estava costurando a rede enquanto cantavam. A música do momento era aquela “só fé, só fé” do cantor Grelo.  Cantavam até que a jotabelesqui desligou do nada e como estava envoltos pela rede decidiram eles mesmo cantarem alguma coisa. 


Além do Zé, la estava o Emerson, garoto jovem que tinha ido pouco ao mar quando tudo estava virado ao avesso. E o Moacir, homem negro com seus cinquenta e cinco anos com bigode farto, esse era mais experiente e, diferente de Zé, um dos maiores mandingueiros do vilarejo. Por causa disso, a primeira música puxada depois do silêncio do sonzinho bluetooth foi uma música que pedia a calma da mãe d’agua e a permissão para a pesca.


Não vamos reproduzir a música pois só quem vai para o mar deve entoar a canção. Portanto, caros leitores, nos pouparei de pedir algo que não podemos receber caso a prece seja atendida. Falo isso pois não há nada mais frustrante para mim do que me preparar para receber ou fazer algo para alguém e esse alguém não aparecer ou sumir. Não faremos isso com a mãe d’agua.


Voltando àquele momento da canção: Moacir canta, Emerson assovia acompanhando e Zé se cala e arrepia. Nunca tinha acontecido antes, o caboclo dono da catraia já tinha ouvido aquela canção incontáveis vezes e nunca a sua espinha tinha sentido aquilo. Sentiu como se seu corpo fosse percorrido por uma corrente elétrica atiçando todos os seus nervos o fazendo entrar num modo de alerta. Respirou fundo, deixou passar.


Depois de costurada partiu para casa, preparar o samburá e dormir no cangote de sua estrela, seu farol. Renata vivia um misto de sentimentos: uma hora choramingava nos cantos da casa maldizendo o mar por seu temperamento de poucos amigos, outra hora tentava se convencer que era necessário arriscar pois a carteira estava vazia e o boleto do cartão da máquina de lavar estava para vencer. Entre o misto de estados dava colo a Zé.


Renata, na cama, falou que sentiria saudade e que a cada minuto rezaria pelo retorno da catraia. Zé ficou calado, o único som que esboçava era o de cafungar. A noite foi quente, eles transaram no calor e abriram a janela para que a brisa do mar matasse o calor e permitisse o sono.


Zé quase não dormiu. A espinha ainda estava arrepiada e, enquanto sentia a brisa do mar, ouvia, se repetindo, a canção da mãe d’agua. Foi a primeira vez que Zé teve medo de lenda. 


Acordou, limpou o rosto na bacia. Beijou Renata, que sorriu alto na tentativa de parir a alegria, Zé, com sorriso amarelo, respondeu a tentativa. Tudo estava estranho. Foi à catraia, Renata não acompanhou, afinal era corriqueiro. O caboclo encontrou Moacir já arrumando a descida da embarcação enquanto Emerson carregava a rede. O mar não estava bom.


Lutaram para passar da zona das ondas, entraram de fato no mar. Passaram da barreira de corais e chegaram onde quem manda é aquele que não tem cabelos. Zé estava tranquilo, estava de pé remando quando algo agarra seu pé.


Dois dias se passam e a reza de Renata dá frutos. O Menino Bonito volta para a praia sem os homens e com a rede cheia. Isso gera um buruçu danado na areia quando entre os peixes encontram algo com olhos de mulher,  com a barriga cheia segurando uma JBL que repete a Dorival de Academia da Berlinda.







terça-feira, 24 de dezembro de 2024

O magro dos pé de bicho (ou um pensamento que tive depois de ler um livro)

 Antes de começar o desafio gostaria de retratar algo interessante: 

Sinto que gosto de me repetir, acho que deve ser algo com um hiperfoco não diagnosticado ou de se sentir seguro num lugar em que o que escrevo já foi referenciado a pouco, seja no texto anterior ou dos dedos de um terceiro. E, por isso, enquanto estava tentando cumprir a tarefa de escrever os cinco mil caracteres fui profundo demais, pensando nas minhas angústias mas particulares. Transformei, por pouco tempo, o google docs em um diário digital.


Deixei de lado, talvez com a cabeça mais fresca volte ao diário e escreva algo a partir daqueles tantos mil caracteres. Hoje não será esse dia.


Começarei agora a escrever sobre o último livro que li por completo no ano de 2024: A cabeça do santo de Socorro Acioli.


Santinho da cabeça oca


Não guardarei o ouro para o final, até porque o que farei aqui é transformar a leitura do livro numa espécie de pensamento aberto refletindo sobre as questões que me vierem. Não terá uma estrutura, será um bicho sem forma e creio que a forma que tomará forma dessa aventura desbocada será magnífica como a história da cabeça, do corpo e de Samuel.


O livro narra um pedaço das aventuras de Samuel, um homem magro que nasceu e cresceu em Juazeiro do Norte no Ceará. Uma terra muito importante para mim, pois, mesmo não sendo um católico prático, é a terra do Padre Cícero, uma figura única que para boa parte dos nordestinos é santo e que sou devoto. 


A narrativa que a autora produz é fascinante! O livro nasceu de uma atividade de escrita criativa conduzida por Gabriel Garcia Marques em terras cubanas em 2006. Dá pra ver a inspiração logo no início quando fui capturado pela imagem do ser meio retirante meio peregrino que vai perdendo a humanidade a cada passada que dá. A descrição dos pés em formato de bicho me acompanhou de início ao fim das peripécias de Samuel.


O magro ganha os pés sem vida e pernas que constroem músculo por dentro dos ossos depois que sua mãe, Mariinha, morre e deixa três (quase quatro) missões para o filho que acabara de ficar órfão, uma vez que fora abandonado pelo progenitor. Deveria acender três velas, cada qual no pé de uma estátua de santo de cidades específicas do Cariri cearense. Uma nos pés da estátua de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, nos pés de São Francisco em Canindé e no corpo do Santo Antônio (o dono da cabeça) em Candeia, terra em que também deveria encontrar sua avó paterna e quem sabe o pai.


Feita a sinopse da beirada da minha cabeça, quero falar de como eu recebi esse tipo de livro que sai de terras mágicas e planetas desérticos de Frank Herbert e cair numa ficção, quase mágica, no sertão do Cariri em que as crendices, beatices e mandingas eu conheço e pratico. Não uso tragistilador economizando as humidades, mas sei que se afogar uma pequena estatueta de Santo Antônio e negociar seu salvamento você consegue casar. 


Não há melange, nem verme gigante que rasga a terra e é adorado como deus em terras arrakinas. Mas existe cachorro fantasma, milagre, sorte e dinheiro.


Candeia foi um pouco de Recife pra mim. Me vi em Samuel como um homem sem fé embebido de poder mágico proveniente de não se sabe onde. A pergunta de quem ta lendo (e se tiver lendo isso aqui me manda um zap falando o que tá achando desse empreendimento ou comenta aqui no blog) é como é que eu me vejo dentro dessa lógica mágica ligado a santos e santas. Te digo:


Eu tenho poderes caros leitores. Um deles é interessante, sei quando vai chover e isso se dá devido a uma intervenção cirúrgica que tenho em uma das pernas. Também tem aquele que se manifesta quando estou em algum lugar com muitas pessoas: torno-me o ponto de referência e automaticamente onde me instalei torna-se rota indispensável para os passantes. Mas, diferente de Samuel, um ateu que aprendeu a perder sua fé devido ao trabalho de ganhar seu dinheiro capitalizando a fé alheia, creio, de verdade, que são dons divinos e que me dão oportunidade de barganha com o outro lado.


Samuel, o magro dos pés de bicho, quando foi a Candeia encontrar com sua avó foi recebido muito mal e mandado a um lugar, foi mandado a cabeça do Santo Antônio que nunca foi colocada em um projeto de estátua gigante. Dentro da cabeça desse santo o Samuel começou a ouvir, em algumas partes daquela gruta feita por gente, as orações das solteironas.


O pensamento, maquinado com outro personagem que usava a cabeça para aliviar seu prazer com revistas pornográficas, foi de capitalizar os pedidos e com isso um casamento foi construído. Madeinusa e o médico da cidade. Primeiro milagre, primeiro poder usado.


Veja, aqui está a mágica. Foi as maquinações do santo ou a esperteza do magro pé de bicho? Foi a vontade de sobreviver e, dentro de uma lógica de que a vida boa vem a partir de uma certa quantia de dinheiro, ganhar dinheiro ou o milagre que beatifica o malandro de Juazeiro?


São perguntas que nunca são respondidas nas 160 páginas do livro, mas que me fizeram refletir: será que alguém que me viu, decidiu passar por aquele caminho, conseguiu casar? Será que tudo isso é culpa de Santo Antônio? 


quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Eram cinco

Era o turno da noite. Nada havia acontecido durante o dia, só o mesmo de sempre. Bom, não dá para dizer que um dia em um hospital público em Recife seja calmo. Mas, por mais estranho que pareça, para Jorge, o segurança da TKS, uma terceirizada contratada pela OS responsável pelo hospital, o dia foi muito tranquilo.

Jorge estava cansado. Pois, por algum motivo a escala estava dobrada e fez com que ele se encontrasse nessa encruzilhada junto com todas as vinte e quatro horas que ficaria no Hospital. Não era culpa dele, alguém do RH que estava pouco se fudendo para a sua saúde, clicou algumas vezes com o mouse em uma planilha austera de excel e, sumariamente, deu de presente o plantão para esse segurança em específico. E por isso Jorge teve que aceitar uma vez que para quem tem fome e sabe que terá fome no outro dia, como Jorge,  aceita a sentença com ou sem condições.


Muito café para não fechar os olhos. O rapaz ainda pensava se tomava o energético que comprou mais cedo na hora do almoço e que estava meiado na geladeira da copeira. Era um Monster de Mango Louco. Não tomou, porque lembrou de um paciente que chegara com a pressão muito alterada por causa do consumo de energético e café.


Ao menos Jorge tentava se consolar, pois no turno da noite seu papel seria mais tranquilo, estaria em uma guarita monitorando apenas uma câmera. Bem diferente do turno do dia na qual se consistia em vigiar a sala de espera da emergência, em que o poder, incumbido a ele pela responsável da unidade de saúde, era o de não permitir superlotar as cadeias com mais de um acompanhante. Era excruciante, afinal Jorge era empurrado em direção a crueldade que desumaniza o paciente e o outro. Sem falar, é claro, de lidar diretamente com pessoas.


A guarita era uma espécie de prisão elevada, o pessoal chamava de guarita mas não passava de uma saleta que um dia foi um depósito de remédios e que agora, adaptado para o século XXI, metamorfoseou-se em uma sala de câmeras. O papel de Jorge era vigiar apenas uma das câmeras, o trabalho parecia realmente mais fácil, ventilador na cara, o   seu revólver calibre 38 pousava ao lado do monitor, o fone de ouvido reproduzia o último disco de Yago Oproprio. A luz da saleta era branca e revelava até o último dos pensamentos dos homens de tão reveladora que era.


O monitor, olho da máquina presa a parede de uma das alas do Hospital, revelava as imagens monocromáticas de um corredor. Era a ala cinco, lugar em que a ignorância e a pouca curiosidade com o funcionamento daquela unidade de saúde nutrida por Jorge não permitia saber o motivo daquela câmera está guardando um corredor e do porquê um segurança deveria está cem por centro responsável pela sua vigia. 


Ele não queria muito, queria apenas chegar em casa. Jorge era um homem alto, branco e que cultivava um bigode volumoso. vestia na ocasião a farda característica da TKS, um simulacro de farda tática policial da cor azul repleta de bolsos e bordados com as iniciais da empresa e um boné, aquele boné da cor azul com as letras bordadas T, K e S.


O sono era o imperador da vez. Vez ou outra sacou o celular do bolso para escolher a música. Tinha uma em específico em que Jorge estava refletindo, castelando: “La Noche”. Música que abre o disco e discute sobre crise, algo sobre se perder de si e de um desejo de se encontrar. 


De repente a luz cai, o fone, que era bluetooth, desliga e um  som de gota caindo em azulejo vira uma espécie de trilha sonora e compete com o silêncio. 


Por uma fração de segundos são só a escuridão, as gotas e o Motorola servindo de lanterna, uma das mãos seguram o Motorola e na outra Jorge porta o revólver. A luz branca volta acende o monitor, que havia apagado devido a oscilação da energia, liga e vai direto para a imagem daquele corredor da Ala 5. Mas agora…


O corredor, outra hora vazio, revela imagem de um homem de boné com algumas letras escritas, sem camisa e sentado encostado em uma das paredes olhando diretamente para a câmera. O semblante é  de um misto de derrota, como se seus pensamentos tentassem, pouco a pouco, atravessar o monitor com a vontade de recobrar a consciência de espaço e tempo.


Jorge, o segurança, não acredita no que ele estava vendo. Aquele rosto, aquele boné com três letras escritas T-K-S, aquele homem que olhava para a câmera tinha o mesmo bigode que ele, os mesmo olhos, a mesma boca. Era como se olhasse para um espelho. Jorge se via no monitor, mas em outro lugar, pelos olhos da câmera.


Aquilo deixou o homem transtornado, mas não mais do que aconteceu em seguida. Uma das portas do corredor se abre e mais uma pessoa, agora vestida com o robe de paciente, pula para o corredor como se fugisse de algo, essa pessoa olha para o homem sem camisa sentado no corredor, olha para a câmera e Jorge torna a se vê no rosto e corpo do paciente. 


Aquilo foi demais para Jorge, de sobressalto ele corre com o celular na mão e a 38 na outra. No caminho o fone conecta novamente e o som que toca é “Inofensiva” de Yago Oproprio. Jorge abre a porta e se depara com um hospital austero, nem um único pé de gente. Nem uma reclamação, superlotação e nem aquele característico cheiro de morte misturado com água sanitária e pinho sol. Não é um momento para muitas reflexões. Jorge correu, sabia onde estavam as duas imagens de si. Ele sabia onde ficava aquele corredor da Ala 5.


O caminho foi estranho, como se andasse fora da realidade. A todo tempo ele queria desacreditar do que tinha visto e do que estava vendo. Por isso, decidiu fazer uma pequena parada. Pensou que na saleta das enfermeiras ele poderia tirar a prova dos dez, não tinha visto ninguém até então, só ele mesmo e por vídeo. 


Abriu a porta com a arma em punho, ninguém estava lá. Mas viu que havia o monitor do computador em que o sistema operacional do hospital funcionava estava ligado e por uma passada rápida do olhar percebeu algo estranho e por isso decidiu se aproximar. JORGE, estava escrito em letras garrafais. Não tinha sobrenome, não tinha nenhum outro nome. Tinha o seu nome e o procedimento que deveria ser feito pelas enfermeiras. O Jorge do monitor deveria remover uma bala.


Achou aquilo muito estranho mas partiu em retirada para aquele corredor da Ala 5. cada passo era um tormento. A essa altura já tinha parado a música e agora os seus pés armadurados com os coturnos preenchiam o silêncio com os estampidos de quem corre com medo.


Agora apenas uma porta separava Jorge de outros Jorges. Ele esbarra com toda a sua força na porta que se abre mas o que ele vê não é bem o corredor, mas um espelho. Jorge não entende, puxa a arma. Jorge, como impulso, atira. O reflexo, também.


Dor no peito, são cinco, foram Jorge.





quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Ainda já é dezembro

Ainda já é dezembro.


A proposta é bater cinco mil caracteres todos os dias sobre os mais diversos assuntos, sobre os mais aleatórios percursos que minha mente atribulada possa fazer. Isso, sem dúvida, é uma tentativa que estou empreendendo de me salvar e quem sabe transformar essa talento da fala em algo que possa me dar o que procuro.


O que eu procuro? não tem resposta fácil para essa pergunta. E como um bom sociólogo que sou, respondo: depende. Pois, depende é a única resposta possível quando não se dá para responder com um “sim” ou um “não”. Mas, para o bem desse primeiro passo preciso ao menos apontar um caminho.


Eu procuro voltar ao habito da escrita. Agora, esquematicamente, seguirei o que o PH Santo, um intelectual e crítico cultural do Ceará, que tem um canal no Youtube, lugar em que eu tento acompanhar seus roteiros e sacadas, disse que faz. Ele falou em uma entrevista no podcast “4 Elementos” sobre a estratégia e hábito que permitiu uma maior versatilidade na escrita e na construção de uma forma de pensar mais esquemática, capaz de fazer relações e ligações entre uma expressão simbólica presente em uma obra de arte e um conceito, um sentimento que paira nos anais das produções das ciências humanas.


O careca do Ceará tem o hábito de escrever dez mil caracteres todos os dias sobre os mais diversos assuntos. Não começarei com dez mil. Então escrevo cinco.


Por tanto, o primeiro excerto é sobre a expressão: "Ainda já é dezembro". Expressão legal que cheguei por pensar no tempo e em como, na minha intimidade, me saboto em relação a passagem do tempo. Afinal, tudo isso remete a aquele sentimento de incompletude daquilo que não se viveu (alo ney ney). É uma ansiedade que não permite quem vive, viver o momento e nos faz reviver a derrota, a perda, e aquilo que escorre entre os dedos.


Você já amassou algo e deixou escapar aquilo que foi amassado por entre os dedos? Não é uma sensação boa. Tem alguma coisa que me provoca a pensar na vulnerabilidade da mão. Pois, não importa o quanto as juntas dos dedos tornam-se brancas demonstrando a força. Ainda sim existirá espaço para aquilo que está sendo amassado escape.


Não que dê para amassar o tempo, ou o mês, mas se não são as metáforas passíveis de amassos o que elas são? Posso responder, não vou usar metáforas agora.


Metáforas são códigos, são língua. Advento extremamente humano capaz de, através dos símbolos e significado, construir o que chamamos de cultura humana. São arbitrários, decididos coletivamente e possuem, por assim dizer, CEP de origem.


Uma explicação que vem embutida no subjetivo, na capacidade de transmissão e no romance, que creio existir, entre o que está dado e posto e o que habita nas entrelinhas.


Agora tentarei responder com metáforas: metáforas são brinquedo da alma. É como a língua dança na plataforma que cria, a cultura. A metáfora é um barco bem pequeno, quase uma canoa que navega por águas densas e complicadas entre a mata ciliar e o oceano sem cabelos. 


É bem verdade que o serpentear de quem brinca com essa canoa diminuta é o que dá significado para aquilo que se parece ser, aquilo que está por se revelar, por revelar algo. Portanto, quando digo que a metáfora é um barco pequeno quero induzir o pensamento para um lugar em que me remeto ao esforço, à agilidade, à necessidade de habilidade para se serpentear nos braços de água. Porém, também quero que você pense que por ser um barco pequeno ela, a metáfora, permite que uma parcela maior da população a domine.


Eu particularmente gosto de metáforas. Acho que sou bom com elas, mas confesso que acabo sendo seduzido por elas. As complicadas, cheias de nuances como um frevo, um tango e as simples com gosto de galinha caipira.


Se ainda já é dezembro é porque os dias dançaram até aqui. Veja, você já viu dias dançarem? Essa é a mágica do processo. Você nunca viu um dia dançar, mas sabe que eles dançam. Afinal, estamos em dezembro e em Olinda domingo dança frevo.


Por tanto, ao fazer esse exercício de me imaginar espremer os anos, os meses e os dias vou me sentindo estranho, parado, dançando quando se dá. Aquele tipo de dança que se dança com vontade quando se conhece a música. Sei que preciso sair da espontaneidade, tomar um pouco mais de iniciativa, mas creio que essa conversa está mais para outro momento, outros caracteres.


Faço um pedido a mim mesmo através do teclado desse celular (e agora do notebook, minha prancha mais usada para o surf de internet) um pedido silencioso. Realmente espero cumprir neste mesmo silêncio: preciso cumprir minhas promessas, não quero me enganar. Faça o que se tem que fazer.


Afinal, escolho minhas metáfora. Vivo seguindo um caminho que julgo desbravar com minhas próprias mãos. Não sou santo, nem tão pouco visionário, mas o diário desse mundo está na cara. Sigo viajando, não na boleia do destino, mas no cavalo de mim mesmo. 


Saber que se viaja sobre si mesmo e para dentro de si é um caminho interessante para pensar como o objetivo, de perto, torna-se subjetivo. É uma perspectiva que arrasta muito de mim para fora. Como uma fratura exposta cuidada com carinho. A cicatriz fica, mas as metáforas (mentiras) saem para passear.