quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Eram cinco

Era o turno da noite. Nada havia acontecido durante o dia, só o mesmo de sempre. Bom, não dá para dizer que um dia em um hospital público em Recife seja calmo. Mas, por mais estranho que pareça, para Jorge, o segurança da TKS, uma terceirizada contratada pela OS responsável pelo hospital, o dia foi muito tranquilo.

Jorge estava cansado. Pois, por algum motivo a escala estava dobrada e fez com que ele se encontrasse nessa encruzilhada junto com todas as vinte e quatro horas que ficaria no Hospital. Não era culpa dele, alguém do RH que estava pouco se fudendo para a sua saúde, clicou algumas vezes com o mouse em uma planilha austera de excel e, sumariamente, deu de presente o plantão para esse segurança em específico. E por isso Jorge teve que aceitar uma vez que para quem tem fome e sabe que terá fome no outro dia, como Jorge,  aceita a sentença com ou sem condições.


Muito café para não fechar os olhos. O rapaz ainda pensava se tomava o energético que comprou mais cedo na hora do almoço e que estava meiado na geladeira da copeira. Era um Monster de Mango Louco. Não tomou, porque lembrou de um paciente que chegara com a pressão muito alterada por causa do consumo de energético e café.


Ao menos Jorge tentava se consolar, pois no turno da noite seu papel seria mais tranquilo, estaria em uma guarita monitorando apenas uma câmera. Bem diferente do turno do dia na qual se consistia em vigiar a sala de espera da emergência, em que o poder, incumbido a ele pela responsável da unidade de saúde, era o de não permitir superlotar as cadeias com mais de um acompanhante. Era excruciante, afinal Jorge era empurrado em direção a crueldade que desumaniza o paciente e o outro. Sem falar, é claro, de lidar diretamente com pessoas.


A guarita era uma espécie de prisão elevada, o pessoal chamava de guarita mas não passava de uma saleta que um dia foi um depósito de remédios e que agora, adaptado para o século XXI, metamorfoseou-se em uma sala de câmeras. O papel de Jorge era vigiar apenas uma das câmeras, o trabalho parecia realmente mais fácil, ventilador na cara, o   seu revólver calibre 38 pousava ao lado do monitor, o fone de ouvido reproduzia o último disco de Yago Oproprio. A luz da saleta era branca e revelava até o último dos pensamentos dos homens de tão reveladora que era.


O monitor, olho da máquina presa a parede de uma das alas do Hospital, revelava as imagens monocromáticas de um corredor. Era a ala cinco, lugar em que a ignorância e a pouca curiosidade com o funcionamento daquela unidade de saúde nutrida por Jorge não permitia saber o motivo daquela câmera está guardando um corredor e do porquê um segurança deveria está cem por centro responsável pela sua vigia. 


Ele não queria muito, queria apenas chegar em casa. Jorge era um homem alto, branco e que cultivava um bigode volumoso. vestia na ocasião a farda característica da TKS, um simulacro de farda tática policial da cor azul repleta de bolsos e bordados com as iniciais da empresa e um boné, aquele boné da cor azul com as letras bordadas T, K e S.


O sono era o imperador da vez. Vez ou outra sacou o celular do bolso para escolher a música. Tinha uma em específico em que Jorge estava refletindo, castelando: “La Noche”. Música que abre o disco e discute sobre crise, algo sobre se perder de si e de um desejo de se encontrar. 


De repente a luz cai, o fone, que era bluetooth, desliga e um  som de gota caindo em azulejo vira uma espécie de trilha sonora e compete com o silêncio. 


Por uma fração de segundos são só a escuridão, as gotas e o Motorola servindo de lanterna, uma das mãos seguram o Motorola e na outra Jorge porta o revólver. A luz branca volta acende o monitor, que havia apagado devido a oscilação da energia, liga e vai direto para a imagem daquele corredor da Ala 5. Mas agora…


O corredor, outra hora vazio, revela imagem de um homem de boné com algumas letras escritas, sem camisa e sentado encostado em uma das paredes olhando diretamente para a câmera. O semblante é  de um misto de derrota, como se seus pensamentos tentassem, pouco a pouco, atravessar o monitor com a vontade de recobrar a consciência de espaço e tempo.


Jorge, o segurança, não acredita no que ele estava vendo. Aquele rosto, aquele boné com três letras escritas T-K-S, aquele homem que olhava para a câmera tinha o mesmo bigode que ele, os mesmo olhos, a mesma boca. Era como se olhasse para um espelho. Jorge se via no monitor, mas em outro lugar, pelos olhos da câmera.


Aquilo deixou o homem transtornado, mas não mais do que aconteceu em seguida. Uma das portas do corredor se abre e mais uma pessoa, agora vestida com o robe de paciente, pula para o corredor como se fugisse de algo, essa pessoa olha para o homem sem camisa sentado no corredor, olha para a câmera e Jorge torna a se vê no rosto e corpo do paciente. 


Aquilo foi demais para Jorge, de sobressalto ele corre com o celular na mão e a 38 na outra. No caminho o fone conecta novamente e o som que toca é “Inofensiva” de Yago Oproprio. Jorge abre a porta e se depara com um hospital austero, nem um único pé de gente. Nem uma reclamação, superlotação e nem aquele característico cheiro de morte misturado com água sanitária e pinho sol. Não é um momento para muitas reflexões. Jorge correu, sabia onde estavam as duas imagens de si. Ele sabia onde ficava aquele corredor da Ala 5.


O caminho foi estranho, como se andasse fora da realidade. A todo tempo ele queria desacreditar do que tinha visto e do que estava vendo. Por isso, decidiu fazer uma pequena parada. Pensou que na saleta das enfermeiras ele poderia tirar a prova dos dez, não tinha visto ninguém até então, só ele mesmo e por vídeo. 


Abriu a porta com a arma em punho, ninguém estava lá. Mas viu que havia o monitor do computador em que o sistema operacional do hospital funcionava estava ligado e por uma passada rápida do olhar percebeu algo estranho e por isso decidiu se aproximar. JORGE, estava escrito em letras garrafais. Não tinha sobrenome, não tinha nenhum outro nome. Tinha o seu nome e o procedimento que deveria ser feito pelas enfermeiras. O Jorge do monitor deveria remover uma bala.


Achou aquilo muito estranho mas partiu em retirada para aquele corredor da Ala 5. cada passo era um tormento. A essa altura já tinha parado a música e agora os seus pés armadurados com os coturnos preenchiam o silêncio com os estampidos de quem corre com medo.


Agora apenas uma porta separava Jorge de outros Jorges. Ele esbarra com toda a sua força na porta que se abre mas o que ele vê não é bem o corredor, mas um espelho. Jorge não entende, puxa a arma. Jorge, como impulso, atira. O reflexo, também.


Dor no peito, são cinco, foram Jorge.





Nenhum comentário:

Postar um comentário