Antes de começar o desafio gostaria de retratar algo interessante:
Sinto que gosto de me repetir, acho que deve ser algo com um hiperfoco não diagnosticado ou de se sentir seguro num lugar em que o que escrevo já foi referenciado a pouco, seja no texto anterior ou dos dedos de um terceiro. E, por isso, enquanto estava tentando cumprir a tarefa de escrever os cinco mil caracteres fui profundo demais, pensando nas minhas angústias mas particulares. Transformei, por pouco tempo, o google docs em um diário digital.
Deixei de lado, talvez com a cabeça mais fresca volte ao diário e escreva algo a partir daqueles tantos mil caracteres. Hoje não será esse dia.
Começarei agora a escrever sobre o último livro que li por completo no ano de 2024: A cabeça do santo de Socorro Acioli.
Santinho da cabeça oca
Não guardarei o ouro para o final, até porque o que farei aqui é transformar a leitura do livro numa espécie de pensamento aberto refletindo sobre as questões que me vierem. Não terá uma estrutura, será um bicho sem forma e creio que a forma que tomará forma dessa aventura desbocada será magnífica como a história da cabeça, do corpo e de Samuel.
O livro narra um pedaço das aventuras de Samuel, um homem magro que nasceu e cresceu em Juazeiro do Norte no Ceará. Uma terra muito importante para mim, pois, mesmo não sendo um católico prático, é a terra do Padre Cícero, uma figura única que para boa parte dos nordestinos é santo e que sou devoto.
A narrativa que a autora produz é fascinante! O livro nasceu de uma atividade de escrita criativa conduzida por Gabriel Garcia Marques em terras cubanas em 2006. Dá pra ver a inspiração logo no início quando fui capturado pela imagem do ser meio retirante meio peregrino que vai perdendo a humanidade a cada passada que dá. A descrição dos pés em formato de bicho me acompanhou de início ao fim das peripécias de Samuel.
O magro ganha os pés sem vida e pernas que constroem músculo por dentro dos ossos depois que sua mãe, Mariinha, morre e deixa três (quase quatro) missões para o filho que acabara de ficar órfão, uma vez que fora abandonado pelo progenitor. Deveria acender três velas, cada qual no pé de uma estátua de santo de cidades específicas do Cariri cearense. Uma nos pés da estátua de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, nos pés de São Francisco em Canindé e no corpo do Santo Antônio (o dono da cabeça) em Candeia, terra em que também deveria encontrar sua avó paterna e quem sabe o pai.
Feita a sinopse da beirada da minha cabeça, quero falar de como eu recebi esse tipo de livro que sai de terras mágicas e planetas desérticos de Frank Herbert e cair numa ficção, quase mágica, no sertão do Cariri em que as crendices, beatices e mandingas eu conheço e pratico. Não uso tragistilador economizando as humidades, mas sei que se afogar uma pequena estatueta de Santo Antônio e negociar seu salvamento você consegue casar.
Não há melange, nem verme gigante que rasga a terra e é adorado como deus em terras arrakinas. Mas existe cachorro fantasma, milagre, sorte e dinheiro.
Candeia foi um pouco de Recife pra mim. Me vi em Samuel como um homem sem fé embebido de poder mágico proveniente de não se sabe onde. A pergunta de quem ta lendo (e se tiver lendo isso aqui me manda um zap falando o que tá achando desse empreendimento ou comenta aqui no blog) é como é que eu me vejo dentro dessa lógica mágica ligado a santos e santas. Te digo:
Eu tenho poderes caros leitores. Um deles é interessante, sei quando vai chover e isso se dá devido a uma intervenção cirúrgica que tenho em uma das pernas. Também tem aquele que se manifesta quando estou em algum lugar com muitas pessoas: torno-me o ponto de referência e automaticamente onde me instalei torna-se rota indispensável para os passantes. Mas, diferente de Samuel, um ateu que aprendeu a perder sua fé devido ao trabalho de ganhar seu dinheiro capitalizando a fé alheia, creio, de verdade, que são dons divinos e que me dão oportunidade de barganha com o outro lado.
Samuel, o magro dos pés de bicho, quando foi a Candeia encontrar com sua avó foi recebido muito mal e mandado a um lugar, foi mandado a cabeça do Santo Antônio que nunca foi colocada em um projeto de estátua gigante. Dentro da cabeça desse santo o Samuel começou a ouvir, em algumas partes daquela gruta feita por gente, as orações das solteironas.
O pensamento, maquinado com outro personagem que usava a cabeça para aliviar seu prazer com revistas pornográficas, foi de capitalizar os pedidos e com isso um casamento foi construído. Madeinusa e o médico da cidade. Primeiro milagre, primeiro poder usado.
Veja, aqui está a mágica. Foi as maquinações do santo ou a esperteza do magro pé de bicho? Foi a vontade de sobreviver e, dentro de uma lógica de que a vida boa vem a partir de uma certa quantia de dinheiro, ganhar dinheiro ou o milagre que beatifica o malandro de Juazeiro?
São perguntas que nunca são respondidas nas 160 páginas do livro, mas que me fizeram refletir: será que alguém que me viu, decidiu passar por aquele caminho, conseguiu casar? Será que tudo isso é culpa de Santo Antônio?
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