quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Ainda já é dezembro

Ainda já é dezembro.


A proposta é bater cinco mil caracteres todos os dias sobre os mais diversos assuntos, sobre os mais aleatórios percursos que minha mente atribulada possa fazer. Isso, sem dúvida, é uma tentativa que estou empreendendo de me salvar e quem sabe transformar essa talento da fala em algo que possa me dar o que procuro.


O que eu procuro? não tem resposta fácil para essa pergunta. E como um bom sociólogo que sou, respondo: depende. Pois, depende é a única resposta possível quando não se dá para responder com um “sim” ou um “não”. Mas, para o bem desse primeiro passo preciso ao menos apontar um caminho.


Eu procuro voltar ao habito da escrita. Agora, esquematicamente, seguirei o que o PH Santo, um intelectual e crítico cultural do Ceará, que tem um canal no Youtube, lugar em que eu tento acompanhar seus roteiros e sacadas, disse que faz. Ele falou em uma entrevista no podcast “4 Elementos” sobre a estratégia e hábito que permitiu uma maior versatilidade na escrita e na construção de uma forma de pensar mais esquemática, capaz de fazer relações e ligações entre uma expressão simbólica presente em uma obra de arte e um conceito, um sentimento que paira nos anais das produções das ciências humanas.


O careca do Ceará tem o hábito de escrever dez mil caracteres todos os dias sobre os mais diversos assuntos. Não começarei com dez mil. Então escrevo cinco.


Por tanto, o primeiro excerto é sobre a expressão: "Ainda já é dezembro". Expressão legal que cheguei por pensar no tempo e em como, na minha intimidade, me saboto em relação a passagem do tempo. Afinal, tudo isso remete a aquele sentimento de incompletude daquilo que não se viveu (alo ney ney). É uma ansiedade que não permite quem vive, viver o momento e nos faz reviver a derrota, a perda, e aquilo que escorre entre os dedos.


Você já amassou algo e deixou escapar aquilo que foi amassado por entre os dedos? Não é uma sensação boa. Tem alguma coisa que me provoca a pensar na vulnerabilidade da mão. Pois, não importa o quanto as juntas dos dedos tornam-se brancas demonstrando a força. Ainda sim existirá espaço para aquilo que está sendo amassado escape.


Não que dê para amassar o tempo, ou o mês, mas se não são as metáforas passíveis de amassos o que elas são? Posso responder, não vou usar metáforas agora.


Metáforas são códigos, são língua. Advento extremamente humano capaz de, através dos símbolos e significado, construir o que chamamos de cultura humana. São arbitrários, decididos coletivamente e possuem, por assim dizer, CEP de origem.


Uma explicação que vem embutida no subjetivo, na capacidade de transmissão e no romance, que creio existir, entre o que está dado e posto e o que habita nas entrelinhas.


Agora tentarei responder com metáforas: metáforas são brinquedo da alma. É como a língua dança na plataforma que cria, a cultura. A metáfora é um barco bem pequeno, quase uma canoa que navega por águas densas e complicadas entre a mata ciliar e o oceano sem cabelos. 


É bem verdade que o serpentear de quem brinca com essa canoa diminuta é o que dá significado para aquilo que se parece ser, aquilo que está por se revelar, por revelar algo. Portanto, quando digo que a metáfora é um barco pequeno quero induzir o pensamento para um lugar em que me remeto ao esforço, à agilidade, à necessidade de habilidade para se serpentear nos braços de água. Porém, também quero que você pense que por ser um barco pequeno ela, a metáfora, permite que uma parcela maior da população a domine.


Eu particularmente gosto de metáforas. Acho que sou bom com elas, mas confesso que acabo sendo seduzido por elas. As complicadas, cheias de nuances como um frevo, um tango e as simples com gosto de galinha caipira.


Se ainda já é dezembro é porque os dias dançaram até aqui. Veja, você já viu dias dançarem? Essa é a mágica do processo. Você nunca viu um dia dançar, mas sabe que eles dançam. Afinal, estamos em dezembro e em Olinda domingo dança frevo.


Por tanto, ao fazer esse exercício de me imaginar espremer os anos, os meses e os dias vou me sentindo estranho, parado, dançando quando se dá. Aquele tipo de dança que se dança com vontade quando se conhece a música. Sei que preciso sair da espontaneidade, tomar um pouco mais de iniciativa, mas creio que essa conversa está mais para outro momento, outros caracteres.


Faço um pedido a mim mesmo através do teclado desse celular (e agora do notebook, minha prancha mais usada para o surf de internet) um pedido silencioso. Realmente espero cumprir neste mesmo silêncio: preciso cumprir minhas promessas, não quero me enganar. Faça o que se tem que fazer.


Afinal, escolho minhas metáfora. Vivo seguindo um caminho que julgo desbravar com minhas próprias mãos. Não sou santo, nem tão pouco visionário, mas o diário desse mundo está na cara. Sigo viajando, não na boleia do destino, mas no cavalo de mim mesmo. 


Saber que se viaja sobre si mesmo e para dentro de si é um caminho interessante para pensar como o objetivo, de perto, torna-se subjetivo. É uma perspectiva que arrasta muito de mim para fora. Como uma fratura exposta cuidada com carinho. A cicatriz fica, mas as metáforas (mentiras) saem para passear.

"Arab Saddling his Horse" de Eugene Delacroix em 1832



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